[Astronovas] VERSÃO CÓSMICA DA QUESTÃO DO OVO E DA GALINHA
astronovas at oal.ul.pt
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Mon Dec 6 16:10:08 WET 2004
VERSÃO CÓSMICA DA QUESTÃO DO OVO E DA GALINHA
Com o auxílio do rádio-telescópio Very Large Array (VLA), um grupo de
astrónomos ao estudarem o quasar mais longínquo conhecido, depararam com uma
pista cativante que poderá ser a resposta à já antiga versão cósmica da
questão do ovo e da galinha: o que se terá formado primeiro, os buracos
negros de grande massa ou as galáxias gigantes?
Durante anos, os astrónomos aperceberam-se de uma relação directa entre a
massa dos buracos negros de grande massa no centro de galáxias e a massa
total do bojo de estrelas presente nos núcleos destas. Quanto maior a massa
do buraco negro, maior a massa do bojo. Os cientistas têm especulado
bastante se teria sido o buraco negro ou o bojo estelar a formar-se primeiro.
Recentemente, algumas teorias sugeriram que ambos podem formar-se
simultaneamente.
No entanto, as novas observações do VLA realizadas a um quasar e à sua
galáxia hospedeira, observados tal como estes eram quando o universo tinha
menos de mil milhões de anos de idade, indicam que a jovem galáxia possui um
buraco negro de grande massa mas não possui um bojo com grande massa.
Nas observações realizadas à jovem galáxia, foram detectadas grandes
quantidades de gás. Quando se adicionou a massa deste gás à massa do buraco
negro, o total perfez aproximadamente a massa total do sistema. A dinâmica
da galáxia, implica que não resta muito mais massa para formar o bojo estelar
do tamanho previsto pelos modelos actuais.
Encontrando-se a mais de 12.8 mil milhões de anos-luz de distância, o quasar,
designado por J1148+5251, estudado pelos cientistas, é o quasar mais distante
até hoje encontrado. Descoberto pelo Sloan Digital Sky Survey, em 2003, o
J1148+5251 é uma jovem galáxia com um quasar brilhante no seu núcleo,
observada como era, quando o Universo tinha apenas 870 milhões de anos. O
Universo possui neste momento 13.7 mil milhões de anos.
Pode ver uma imagem do quasar J1148+5251, em falsa côr, obtida pelo VLA, em:
http://www.oal.ul.pt/astronovas/galaxias/noticia041206.jpg
Os investigadores foram capazes de determinar a quantidade de gás molecular
presente no sistema, apontando o VLA ao quasar J1148+5251 durante um período
de aproximadamente 60 horas. Em virtude desta observação, foi também
possível realizar medições ao movimento do gás e consequentemente estimar a
massa total do sistema galáctico.
Estudos anteriores, realizados ao sistema, tinham fornecido estimativas
acerca da massa do buraco negro - entre 1 e 5 mil milhões de massas solares.
Segundo as novas observações do VLA, a massa total do sistema é cerca de
40-50 mil milhões de massas solares, sendo que a quantidade de gás molecular
perfaz cerca de 10 mil milhões de massas solares. Combinados, o gás e o
buraco negro contribuem com 11-15 mil milhões de massas solares para a massa
total do sistema.
A relação aceite entre a massa dos buracos negros de massa elevada e a massa
dos bojos de estrelas, indica que um buraco negro com esta massa deveria
estar rodeado por um bojo de estrelas com vários milhares de milhões de
massas solares. As medições dinâmicas realizadas, mostram que não sobra
muita massa, excluindo o buraco negro e o gás, para se formar um bojo
estelar. Isto providencia a evidência de que a formação do buraco negro
precede a do bojo estelar.
Certamente que a excepção não faz a regra, mas no caso deste objecto,
aparentemente tem-se um exemplo de um buraco negro que não possui grande
parte do bojo de estrelas que se esperava. Para já, terão de se realizar
estudos mais detalhados de mais objectos deste tipo, "presentes" no longínquo
e jovem universo. Com o auxílio da sensibilidade, vastamente melhorada, do
VLA, e do Atacama Large Milimeter Array (ALMA), que ficará operacional dentro
de alguns anos, os cientistas terão as ferramentas necessárias para a
resolução definitiva desta versão cósmica da questão do ovo da galinha.
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